No dia a dia universitário é comum que os acadêmicos procurem professores, coordenadores e diretores para conversarem e desabafarem sobre suas angústias e questões relacionadas com a vida social e universitária. Muitos buscam apoio para lidar com colegas que estão com depressão, ansiedade ou ainda aquele que está bebendo muito ou, até mesmo, usando drogas. Ao fim de 2017, após vivenciar esta realidade como docente do curso de medicina, me senti impulsionada a propor a coordenação do curso a implantação do programa que tanto me ajudara durante minha graduação anos antes, a Tutoria Mentoring. Minha proposta foi recebida com total apoio da direção e coordenação do curso, além da reitoria, pois eles já estavam enfrentando desafios com muitos alunos referentes a questões psicossociais. Isso possibilitou convocar outros professores para entrarem nesta empreitada.

O programa teve início em julho de 2018 com 5 grupos, cada um com 10 alunos e 1 professor tutor, totalizando 50 discentes e 4 docentes envolvidos. Além de coordenar o Programa de Mentoring, eu fiquei responsável como mentora de dois grupos. Inicialmente, enfrentei certa dificuldade em direcionar e capacitar os outros professores que desconheciam o programa e não sabiam como fazer a moderação, tornando-se mentores. Existem poucas referências práticas sobre a temática, logo, foi utilizado muito da experiência prévia como aluna do mentoring, mas também das práticas teatrais, as quais realizei por anos da infância à adolescência, favorecendo o uso de metodologias ativas e práticas vivenciais capazes de acolher com direcionamento as demandas dos grupos.

Semestre após semestre, o programa foi sendo estruturado e ampliado, sendo que, a partir de agosto de 2019, ele deixou de ser um programa vinculado exclusivamente à Faculdade de Medicina e passou a ser um programa Institucional da UniRV, vinculado à Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE), momento em que ele começou a ser expandido para outras faculdades da UniRV. Em 2021, ele passou ainda a integrar o Programa Mente Aberta, também da PRAE. Atualmente o programa atende os cursos de medicina Rio Verde (6 grupos), medicina Goiânia (2 grupos), medicina Formosa (2 grupos), Psicologia (2 grupos), Odontologia (2 grupos) e Engenharia Civil (2 grupos). Cada grupo é composto de 1 professor mentor, 1 aluno monitor\mentor júnior e 15 integrantes totalizando cerca de 240 alunos participantes e 10 professores mentores (isso porque há professores mentorando mais de um grupo).

Continuamos enfrentamos a necessidade de expandir, pois há demanda, tanto nos cursos já abrangidos pelo programa quanto em novos cursos, contudo, faltam-nos professores com perfil e desejo de se tornarem tutores somado à disponibilidade de carga horária para realização do trabalho. Uma das características necessárias buscadas para tornar-se mentor é saber acolher, integrar, gostar e se disponibilizar a construir vínculos eficazes com os alunos de forma que estes se sintam bem e se tornem frequentes e participativos nas reuniões. E, infelizmente, sabe-se que não são todos os professores que possuem este perfil empático e acolhedor requerido.

Na instituição pesquisada, a forma adotada para o andamento das atividades de tutoria mentoring foi a extracurricular, a qual gera, semestralmente, certificados de horas complementares para os participantes, e a frequência das atividades ocorre com a realização de encontros quinzenais entre o professor mentor com seu respectivo grupo. Durante as reuniões são discutidas temáticas escolhidas pelos alunos e seus tutores, sendo sempre realizada alguma metodologia ativa como atividade\dinâmica de integração associada a discussões. As temáticas são das mais variadas possíveis, abrangendo desde questões acadêmicas, curriculares, profissionais até mesmo socioemocionais.

Os locais onde são realizados os encontros também variam bastante, buscando-se sempre os extras campus, como praças, sorveterias, parques, lanchonetes, espaços de recreação, pois a experiência com os grupos tem mostrado que sair da sala de aula possibilita uma maior proximidade entre professor-aluno, diminuindo a impessoalidade tão presente em sala de aula. O acesso ao programa ocorre através de um processo simplificado de inscrições, sempre no início de cada semestre, no qual os interessados se inscrevem através de formulário on-line disponibilizado pela coordenação do programa através da página da PRAE. Conforme vão surgindo as vagas, os acadêmicos são alocados e convocados para compor os grupos.

Todo semestre enfrentamos a existência de filas de espera, pois nunca conseguimos atender a todos os alunos interessados que se inscrevem. Um dos motivos da fila de espera é que a grande maioria dos alunos do programa se adapta, conecta-se com o grupo e não se desliga do programa, o que é um de seus objetivos, pois eles criam vínculos e com isso passam, além de receber, a dar suporte uns aos outros de modo longitudinal. Logo, com isso, ao longo dos semestres, a rotatividade dos integrantes dos grupos é pequena, o que acaba por disponibilizar poucas vagas remanescentes nos semestres subsequentes.

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